sexta-feira, fevereiro 02, 2007

um susto, o descuido. olhos imensos para não crer. luzes incompreensíveis. dissimulação num rodopio. horas que matam a mentira. a morte da mentira. areia de sol lavada, os pés que desejam passar

Você desconhece como apago de mim o que já não me dá mais margem pro sonho.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Penso em como me transformei em um baú repleto de pegadas não entregues ao mar- ou qualquer intempérie. Suponho que deveria ter fixado os ensinamentos de La Fontaine e construído apreço pelo bambu, fino e maleável... Quem sabe, por favor, uma dose curta de memória (um elefante nunca esquece e, como tal, carrega o peso).

Há dias abro-me e espero um vento passante que carregue tanta mágoa. Ou tanto amor. Se existe uma pluma de esperança, essa será a mais adorada, daquelas que não nos permitem pestanejar em ir ao encontro, correndo como bestas atrás de tamanha indecisão –caio ali ou aqui- tropeçando de braços abertos.

Permaneço de braços abertos. Olho bem fundo nos olhos das pessoas nas ruas, olho bem fundo para rua (porque não sou mais a dondoca emocional de antes). Procuro sinais, pois ainda não desisti de enviá-los e preciso crer que há quem os envie também- e queira recebê-los.

E é pensar assim que o vento faz como quem me visita, só de passagem. Traz a pluma e leva um pouco de mim. Piscando vestígios, espero por algo que me habite. Eu, tão oca.

terça-feira, outubro 17, 2006

Enquanto afundava os pés, me entretinha em não exteriorizar aquela rusga interna. Não é que não quisesse aborrecê-lo, fazia mais pra ter com o que me ocupar. Depois de tantos anos, era inconteste que eu cortara as pontas com uma faca cega, num primitivismo de ideal de purificação. Sem harmonia, eu ia me lavar em água corrente, me convencendo de que um bilhete de despedida, numa mesa onde sobrevoam as moscas, merecia ser uma obra final.

terça-feira, outubro 10, 2006

no jardim há pouco fotografado por mim, encontro vários trevos de três folhas. é o que dizem ser do azar, enquanto chamo de evolução: quem quer ser arrancado e dado num gesto de presentear, para depois convergir as lembranças e os esquecimentos em si, cor de seco, dentro de um livro?

fechei os olhos, cri no meu próprio esquecimento amassado de livro. além de esquecer e ser esquecido, que se faz? que susto! esquecer é um verbo carente, não conjuga-se sem antes a companhia insensata das recordações. não as quero.

sentei, deitei, caí. não sei se de tropeço, de empurrão, não me parece que estava em outro lugar há anos. não existem pernas que me sustentem no ar: elas são movidas a idéias, dispersas agora. não irei catá-las, não provocarei um mínimo de esforço para mover a ponta do dedo, dobrá-lo e nele enroscar um pensamento. ficarei bem, sentindo o bater das asas dos meus fragmentos. aos poucos, não sobrará nenhum.

segunda-feira, setembro 18, 2006

o dedo doce, uma bolinha moldada nas mãos. pensando algo assim: se a bolinha se desmanchasse e fosse absorvida pra passear pela corrente, poderia se metamorfosear em doçura pura? e alcançar em cheio o coração, dizendo coisas que a ternura jamais poderia vislumbrar?

os acordes deletérios rasgam, tinindo metais. impulsionam chispas que não têm tempo de serem codificadas: olhos arregalados numa incompreensão infinita.

quem sabe um pote inteiro de açúcar.

domingo, setembro 03, 2006

Meus dedos queimam, estou catando essas paredes, fazendo força, muita força mesmo, para trazê-las até aqui, para me cercarem de mais perto. Levantei, nem as paredes querem me engolir. Existem arabescos no céu, diviso-os, sabem tudo sobre mim. Eu penso na leviandade desse laranja, mas não quero discutir. Realmente. Quero a fumaça, seguir a linha. Quero criar falsos diálogos, estou fugindo enquanto tento me equilibrar. Amanhã será terrível, com tantas obrigações de ver e cheirar a miséria. Ainda tenho a noite para a minha energia, para me adorar.
... que tinha cheiro de infância: deu voltas pelo ouvido, mas o que é. Tornou-se entanguido, é como dizer "eu não te alcanço", permanecendo os olhos dubitativos, "não entendo de mulher". E se remediasse, "não é mulher, é céu", os olhos dessa feita relembrariam: "existia um céu, era tarde, as cigarras cantavam e o júbilo era pôr as cascas nos cabelos das moças". Mas se fosse relato de reiterar uma vida de si para si, que saída seria, "toma, me dou". Pensaria que era salacidade ou pureza? E se não ocorre um pensamento, consentindo? "Sim, se dá". Os olhos embebidos da novidade arriscam um novo lume, nasceram agora (antes dormiam ou abriam retesados, para lá e para cá, uma mosca presa ao copo). "É um gosto ressabido a saliva, deluso". Sem subterfúgios, não são flores, têm carne e movimento de quem não balança ao ar. Não fosse a escuridão e o silêncio, jamais se encontrariam.

domingo, julho 16, 2006

não suportei a idéia de manchar a camisa com o cheiro do desodorante, tão impessoal. o azedume se entrelaça faz pouco com esse encanto que persegui. sigo.

faz uns três dias que tenho alucinações de compreensão. sou um bicho cruel, minha benevolência ataca os mais incautos, cegos, de umbigos. chego ao risco de crer em olhares. escrevo cartas, sublinhei emoções. estou fedendo para manter o cheiro dele. sou uma criatura sentimental, faltam-me peneiras imensas, onde é que as enfiei? seguindo.

isso não é bem visto. que esquecer por um relance dos gestos largos que dispersam, das molecagens e maldades, nos faz enxergar um botão, maior ou menor, que se chama gente. um botão cercado por ferro, que se pensa trancafiado a chaves.

não estamos preparados para nos enxergar.